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Desde 2005 publico álbuns de HQ com temas históricos e literários.

Antes, eu já havia tido experiências com quadrinhos na revista Níquel Náusea 
do meu amigo Fernando Gonsales.



Criei histórias curtas, de 6 a 12 páginas, em todos os 28 números da revista,
que durou de 1987 a 1995.
Embora tenha tido boa repercussão, as HQs daquele tempo não me satisfazem, seja
 como texto, seja como desenho. Ainda eram, acredito, "HQs de cartunista" - muito
 humor, impaciência na realização, pouco apuro técnico.

As histórias esporádicas na Níquel não ofereciam um desafio constante, diário, daquele
 tipo que faz o artista enfrentar seus erros e evoluir.
Era preciso um projeto mais sério, e um esforço mais continuado e persistente.


SANTÔ E OS PAIS DA AVIAÇÃO (2005)




"Santô e os pais da aviação - a história de Santos-Dumont e de outros homens
 que queriam voar" é uma HQ de 144 páginas, em preto e branco. O álbum todo
tem 168 páginas, com making-of e informações adicionais.

Eu vinha desenvolvendo esse projeto desde os 15 anos de idade.
Inicialmente era para ser um desenho animado.
Depois, pensei num CD-Rom, mídia que teve um breve sucesso na década de 90.
Aos poucos, da pesquisa foi emergindo um roteiro de HQ.

*  *  *

Inicialmente, a história tinha um caráter ufanista. A biografia de Santos-Dumont
 costuma ser contada por aqui com muita dor-de-cotovelo. A grande maioria dos livros
 segue a noção popular de que o avião foi inventado por um brasileiro, mas só nós
 sabemos disso. Segundo essa versão dominante, os americanos roubaram a nossa
 glória, dizendo que quem inventou o avião foram os irmãos Wright (cujo avião só
 decolava com o auxílio de uma traquitana composta de torre, peso e trilhos).

Com o passar dos anos, fui estudando outras histórias da aviação, comparando
 os documentos, e uma visão mais relativizada se impôs.

Os outros pioneiros tinham também histórias interessantíssimas, inclusive os "vilões"
 Wright. Surgiu uma rede de pesquisadores e pioneiros fanáticos, engenheiros
 profissionais e amadores, "geeks" obcecados pela idéia de construir uma máquina
 voadora. E Santos-Dumont era o que tinha mais condições financeiras, mais facilidades,
 talento e dominou o cenário da aeronáutica durante cinco anos sem concorrentes.

Numa certa fase da criação da história, comecei a implicar com Santos-Dumont ...
 me pareceu o mais privilegiado, o menos heróico, pois o heroísmo se mede pelas
 dificuldades que o herói tem que vencer.

Este impasse foi importante, porque me levou a investigar qual teria sido o seu
"demônio", o seu conflito interno (para salvar o personagem...). E, creio eu, achei.
Especulei que o maior desafio para Santos-Dumont era o interior: fazer jus ao
presente que seu pai, engenheiro e rico fazendeiro de café, lhe dera:

"eu lhe dou o futuro... esta é a sua parte na herança,
vá para Paris, estude mecânica...
o futuro está na mecânica..."


Isto possibilitou ao rapaz dedicar-se integralmente à questão do vôo.
Mas pode ter sido também um fardo, uma missão pesada que ele se auto-impôs.
Santos-Dumont não admitia ser menos do que perfeito; era-lhe insuportável o fracasso
 ou mesmo o sucesso mediano. Ele tinha que ser o primeiro.

O pai de Santos-Dumont, Henrique, morre antes de ver o sucesso do filho. Ele se
 tornaria campeão da aeronáutica duas vezes, com o balão dirigível e fazendo o primeiro
 vôo oficial do mundo, adquirindo fama internacional.

Desde Dom Pedro II o Brasil tem vocação para criar celebridades mundiais - Pelé,
 Ronaldinho, Gisele Bundchen - cuja fama e talento contrastam e evidenciam
nosso atraso econômico, tecnológico e cultural.
Alberto Santos-Dumont, que brilhou nas competições científicas do início do século XX,
 que lembravam muito eventos esportivos, e ainda lançou moda com o relógio de pulso e
 o chapéu panamá desabado, era uma mistura de Ayrton Senna com Professor Pardal,
 com pitadas de Gisele Bundchen.

Um personagem brilhante, solitário e trágico, que seguiu quase ao pé da letra
o destino de Ícaro: ganhou as asas do pai, e voou perto demais do sol.


DEBRET EM VIAGEM QUADRINHESCA E HISTÓRICA AO BRASIL (2006)




"Debret" teve início com um convite para criar uma HQ de 18 páginas
com o tema "viagem", para comemorar os 20 anos da Companhia das Letras.
Escolhi fazer uma biografia do pintor Debret, que esteve no Brasil nos anos 1816-1831
 com outros artistas franceses e documentou, com suas pinturas e desenhos, a época em
 que d.João VI, fugindo de Napoleão Bonaparte, instalava no Rio de Janeiro
 a capital do Império Português.

Esta HQ, originalmente, iria integrar um livro maior, com mais dois autores,
que infelizmente não puderam mais participar. Assim, propus que a minha história,
já em processo de finalização, desse origem a um álbum de 48 páginas, enriquecido
com gravuras de Debret, artigos e estudos de personagens. Os direitos de reprodução
 das gravuras de Debret foram adquiridos do museu Castro Maya, no Rio.
Uma das pinturas, então inédita no Brasil, que mostra a fase francesa de Debret
 como retratista de Napoleão, foi licenciada de um museu francês.

A introdução é da historiadora da arte Elaine Dias, que pesquisa
 o artista Félix-Émile Taunay, também integrante
daquela colônia de artistas franceses.

No "ano da França no Brasil" (2009), o canal Futura da Fundação Roberto
 Marinho transformou esta HQ em um programa de semi-animação, com vozes,
sons e efeitos especiais, que foi ao ar no dia 31/10/2009.


D. JOÃO CARIOCA (2007)



"D.João Carioca - a corte portuguesa chega ao Brasil (1808-1821)" é um álbum
 de 96 páginas (70 de HQ), em cores.
Para comemorar os 200 anos da vinda da famiília real portuguesa, a historiadora
 e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, da Cia. das Letras, me convidou para fazer
 um álbum de HQ com o tema.

Já tínhamos trocado figurinhas em "Debret". Na fase de apresentação do roteiro
 à editora, ela se interessou bastante e fez algumas críticas.
Eu sabia do seu interesse e conhecimento do assunto (afinal, além de livros como
 "As Barbas do Imperador" e "A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis", Lília havia feito
 parcerias com os cartunistas Miguel Paiva e Angeli em livros de história do Brasil),
 o que eu desconhecia era que o seu projeto atual era justamente sobre um dos
 membros da então chamada "missão francesa", o pintor Nicolas Taunay,
também personagem da minha HQ.

Dessa maneira, esse primeiro contato e os emails simpáticos que trocamos
 ("cara orientadora...") foram o início da parceria que firmamos em "d.João Carioca".

Não foi uma divisão de tarefas simples, em que um faz o texto e o outro ilustra.
De maneira geral, Lilia supervisionou o projeto e traçou as linhas gerais, assim:

"1. Portugal dividido entre Inglaterra e França;
2. A decisão de embarcar: a confusão dos passaportes etc;
3. a travessia, os piolhos etc..."


Eu me encarreguei do roteiro, ou seja, dispus as informações em forma dramática,
 fiz o "script" com cenas e diálogos, como num filme:
"cena 1, largo do paço no Rio de Janeiro; um tear queimando numa fogueira..."

No fim das contas, há trechos com pesquisa e redação minha, como "um século antes
 das bombas V2 de Hitler, os ingleses foram os pioneiros no ataque aéreo com
 foguetes"
, e partes com texto de Lilia, como "os franceses voltam a invadir Portugal e
 são expulsos pela população na base do garfo, faca e panela
". Nestes dois exemplos
 nota-se a tendência comum de informar com certa dose de humor.
Nós dois pesquisamos e escrevemos; Lilia só não fez os desenhos :)

Cumpre assinalar também uma "missão" que nos demos com este álbum: divulgar uma
 narrativa da vinda da família real menos caricaturesca e mais próxima da realidade
 (nem heróica, nem burlesca: com as complexidades e sutilezas da vida real...).
 O imaginário popular estava dominado por narrativas como "as maluquices do
 imperador", o filme "Carlota Joaquina" e a minissérie "os Quintos dos Infernos", que
 repisavam os clichês do príncipe bobão, da princesa maquiavélica e da rainha louca.

Nossa versão desse evento é historicamente mais acurada, o perfil de d.João mais
 completo e complexo (inseguro, mas manhoso; pacífico e negociador, mas imperialista).
É curioso que uma versão mais "séria" tenha sido levada a cabo
 com desenhos de caricatura.

Esta HQ foi transformada numa minissérie de 12 capítulos e um documentário, pelo
 canal Futura da Fundação Roberto Marinho, com excelentes resultados de videografismo,
 sonorização e dublagem, que foi ao ar nos anos de 2008 e 2009. Os programas utilizam
 desenhos originais com efeitos de distorção, perspectiva e movimentos.


JUBIABÁ DE JORGE AMADO (2009)



O projeto seguinte foi a adaptação para os quadrinhos da obra "Jubiabá"
de Jorge Amado (1912-2001).
São 80 páginas de HQ, coloridas, com roteiro e desenhos meus.

"Jubiabá" foi escrito em 1934 e foi o primeiro best-seller do escritor baiano. Foi lendo
 a edição em francês ("Bahia de tous les saints") que o fotógrafo Pierre Verger decidiu
 conhecer a Bahia e se estabeleu lá pela vida toda, tornando-se especialista em
 candomblé. O mesmo ocorreu com o argentino Carybé.



"Jubiabá" conta a história de Antonio Balduíno, o Baldo, negro boxeador, malandro
 e capoeirista, que vive uma série de aventuras desde o morro em que nasceu, passando
 pela casa de um rico comendador, depois vivendo na rua com uma gangue de
 adolescentes, depois boxeador, vagabundo, artista de circo... até tornar-se estivador e
 participar de uma greve no cais. Jubiabá é o pai-de-santo mentor de Balduíno.

Hoje, o público conhece mais "Capitães da Areia", "Dona Flor" e outras obras do escritor
 baiano. Muitas delas saíram de "Jubiabá", livro que parece um resumo do universo
 amadiano, tanta a variedade dos personagens e cenários.

"Jubiabá", juntamente com outros títulos de Will Eisner e Craig Thompson, inaugurou
 o selo "Quadrinhos na Cia", setor da Companhia das Letras especializado em HQ.


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