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quem sou eu
Meu nome é João Spacca de Oliveira, nasci em 1964 em São Paulo, SP.

Meu pai, João Batista, fazia desenho arquitetônico e se especializou em projetos de
 lojas e estabelecimentos como bares, açougues e lanchonetes, que usam balcões
 frigoríficos. Ele usava o desenho tanto para vender os projetos - desenhos artísticos em
 perspectiva - como para orientar a construção das peças, com plantas e desenhos
 técnicos. Desde criança eu o via desenhar e, quando ele ia para a indústria de
 refrigeração para a qual trabalhava, a sua grande prancheta de 1,80m era minha.

Minha mãe, Veronica Spacca, era professora e diretora do EMEI (escola municipal de
 educação infantil) Gomes Cardim, na praça N.S. do Bom Parto, no Tatuapé. Também foi
 supervisora de ensino na Prefeitura de S.Paulo, na administração Jânio Quadros
 (1985-89). Nunca faltou papel e incentivo para que eu praticasse desenho.



FORMAÇÃO E PRIMEIROS EMPREGOS

Comecei trabalhando em publicidade, aos 15 anos de idade, como ilustrador na agência
 Young & Rubicam do Brasil, na época uma das maiores do mundo. Fiquei 4 anos,
 fazendo principalmente storyboards de filmes (o storyboard é uma sequência de quadros
 que representa um filme).

Não era um trabalho criativo, o que eu fazia era dar suporte à criação da agência. Mas,
 sem dúvida, uma base importantíssima para minha vida profissional, em dois sentidos:
 primeiro, porque por meio dele fiquei familiarizado com linguagem de cinema (close,
 planos, "travelling", "fecha" no produto etc); e segundo, porque os criadores explicavam
 os filmes desde o conceito e o problema do cliente, falavam do público-alvo, da
 estratégia... Acho que eles ensaiavam comigo o discurso que iriam fazer
 na reunião com o cliente.

De qualquer forma, isso me fez acostumar, em qualquer projeto, a pensar no leitor,
no espectador, na recepção da mensagem, em como torná-la mais clara e divertida...
E também a valorizar os clientes e parceiros que não apenas "encomendam" o trabalho,
 mas que gostam de conversar comigo numa perspectiva mais ampla, com mais
 profundidade, pensando num grande projeto de comunicação.



Enquanto isso, fiz o segundo grau num colégio técnico, a então ETSG Carlos de Campos
 (conhecido como Cacá ou KK), escola no bairro do Brás em São Paulo de onde saíram
 muitos profissionais de ilustração e design. Fiz o curso de Desenho de Comunicação. Era
 uma escola modesta, pobre de recursos naquela época, mas cheia de entusiasmo.
E completei meus estudos na FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado),
onde me formei em Comunicação Visual.

Devo registrar aqui a informalíssima escola do professor Ismael dos Santos, que conheci
 num programa da TV Cultura de S.Paulo chamado "História do Desenho Animado" aos 10
 anos de idade. Reencontrei o prof. Ismael aos 15 e frequentei o seu "Núcleo de Arte"
 por cerca de um ano, e esse ambiente dinâmico, bastante prático e direcionado para o
 mercado dos estúdios em editoras e agências, que me levou a conseguir o primeiro
 emprego como desenhista.

Troquei a publicidade pelo desenho animado. Na produtora Briquet Filmes, estagiando,
 animei o primeiro filme do personagem "Bond Boca" do anunciante Cepacol, depois já
 empregado animei mais o segundo, e mais alguns desenhos de chocolates e sorvetes
 por mais ou menos um ano.

Ao mesmo tempo, uma outra vocação - ou pelo menos um sonho, ou ilusão quem sabe -
 estava crescendo e tomando conta: a charge política.
Trilhar o caminho de Jaguar, Millôr,
 Ziraldo, Henfil, Angeli... naqueles anos de fim da ditadura, 84, 85, o desejo de
 participação política era muito forte.
Embora desenhista nato, a idéia da charge era uma
 habilidade nova a ser aprendida, conquistada.
E eu vinha tentando aprender, não só a
 técnica do humor gráfico, mas também a visão política (evidentemente, de esquerda)
 que era o background do chargista político brasileiro de 60 em diante.

FASE FOLHA (1985-1995)
 
E em 1985 duas coisas importantes aconteceram: publiquei no Pasquim (da sessão de
 cartas, ganhei duas vezes uma página inteira do generoso Jaguar, que teimava em
 continuar publicando o moribundo jornalzinho); e ganhei o concurso da Folha de S.Paulo.
Em 86, herdei o quadrado da charge na página de Opinião (então feita pelo Claudius e o
 Paulo Caruso), e fiquei nele até 92, dia sim, dia não, alternando o espaço com o
 cartunista Glauco.



Daí larguei tudo e fui tentar uma carreira de cantor-imitador do Cazuza com uma banda.
 Artisticamente foi bem, como trabalho nem tanto, e voltei ao jornal fazendo uma charge
 por semana, porque o Angeli tinha voltado também.
Em 95 larguei definitivamente a charge.

Não morro de amores por essa fase da minha vida profissional. Ao contrário do que
 acontecia nos meus antigos empregos e com meus clientes, o relacionamento com o
 editor-chefe era muito superficial, na base do gostei-não gostei-faz outra. Eu estava
 habituado a discutir conceitos, estratégias de comunicação, a pensar como editorialista.
 Mas na Folha não funcionou assim: era jornalista de um lado, "artista" do outro. Isso
 com o passar dos anos foi minando meu entusiasmo pela charge e pelo jornalismo.
 Nem o interesse de ter "visibilidade" me segurou lá.
 
Ainda guardo um vínculo com o jornalismo ilustrando semanalmente o "Observatório da
 Imprensa" on-line há mais de dez anos, onde jornalistas puxam a orelha de jornalistas.
 
Mesmo assim, houve saldos positivos:
 
- ter trabalhado lado a lado com feras da ilustração e do cartum, bem como os
 diagramadores e artefinalistas. O estúdio nas redações acabou: hoje todo mundo
 trabalha em casa. Por isso foi um tempo, afinal, precioso.
 
- ter ilustrado por dois anos o suplemento "Folhinha", dirigido por Monica Rodrigues
 Costa. Aqui, realmente, a gente trabalhava e pensava junto o jornal com muito respeito
 e entusiasmo: as jornalistas Monica e Belinda, o diagramador Moacyr e eu formávamos
 uma boa equipe. Além disso, havia também a honra de ocupar um lugar que sido
 ocupado pelo estúdio Maurício de Sousa, que ilustrava o suplemento antes de eu saber
 ler. Fazer a "Folhinha",  foi, desta forma, realizar um sonho de infância.
 
- e mais um aspecto positivo, derivado da "Folhinha" , é que o tablóide trazia nas
 páginas centrais um "conto recontado", uma história famosa - Peter Pan, D. Quixote -
 recontada e modificada por um autor diferente. A coletânea desses contos saiu num
 livro chamado "Vice Versa ao Contrário" da jovem editora Companhia das Letras,
 e esse foi o início de um relacionamento de deu muitos frutos.

OUTROS CAMINHOS
 
Durante a Folha e depois dela, prossegui fazendo ilustrações, cartuns e quadrinhos
 para publicidade, livros didáticos e infantis.
 
Um segmento promissor era o de cartuns para treinamento em empresas e
comunicação com o "público interno".
Era divertido usar a linguagem de humor para ilustrar conceitos para profissionais
 específicos como bancários, advogados , engenheiros...
Havia o desafio de fazer um
 assunto "chato" ficar interessante, o difícil ficar fácil, e ser avaliado por gente da área,
 aprender a linguagem de cada profissão.
Informalmente, aprendi conceitos de
 marketing, merchandising e um monte de jargões e sistemas usados pos gurus
 e consultores empresariais.
Até hoje clientes como a Plan & Apply e Amana Key utilizam o cartum com
 propósitos educacionais em seminários e treinamentos.



©Amana-Key
 
Convencido de que havia uma boa oportunidade para unir humor e negócios,
abri com o cartunista Custódio uma empresa chamada "Fun for Business".
Esse nome nos pareceu, então, cair como uma luva no nosso propósito de
utilizar a linguagem do humor para a comunicação empresarial.
Porém, constatamos, após um ano bem promissor, que os departamentos de RH
 se viravam bem, no mais das vezes, com uma caneta e flip-chart ou, no máximo,
 imagens baixadas da internet... mais dois anos meio mais ou menos nos
convenceram de que o caminho não era por ali.
 
A empresa se desfez quando o meu projeto "Santô e os Pais da Aviação"
foi aceito pela Companhia das Letras em 2004.

QUADRINHOS NA CIA

Desde então, os quadrinhos têm sido a coisa mais envolvente, difícil e prazeirosa
 que já fiz na vida.
Agora já no quinto álbum em produção, tenho projetos para até,
pelo menos, 2018.
 
E além dos prazeres da HQ em si, cada projeto é discutido com um profissionalismo
 que me faz lembrar do meu primeiro emprego, em que o diretor de criação da Young
 vinha criar comigo um filme publicitário, e falava da idéia, do conceito, do público-alvo,
 da pesquisa, da reunião com o cliente, de close, de zoom-out,
de appetite appeal e pack shot...

Na editora também é assim. Nós falamos de aspectos técnicos, comerciais, artísticos,
 de necessidades industriais e pedagógicas, do distribuidor, do livreiro, do educador...
e, especialmente, do leitor.

Não é desenho encomendado, não é prestação de serviço. É um projeto que vai
 nascendo, ganhando forma, com acordos e contribuições que podem vir de ambos
 os lados. Essa é uma situação rara, que só acontece entre amigos.
 
Obrigado por ter vindo aqui partilhar esta alegria, esta realização.
um abraço do spacca (27/10/2009).

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