disney
na itália:
romano scarpa e g. b. carpi
© Walt
Disney Productions - reprodução sem fins lucrativos
Indiscutivelmente, Walter Elias Disney imprimiu uma marca profunda na imaginação e nos negócios do homem do século 20, e sua influência ameaça estender-se pelo milênio seguinte.
Os contos de fada tradicionais e os personagens de Barrie (Peter Pan), Collodi (Pinocchio), Carroll (Alice) e Kipling (Mowgli), depois de adaptados para o desenho animado, para todos os efeitos tornaram-se personagens Disney.
Além dessas recriações ou apropriações, um mundo mágico original formou-se em torno dos personagens carro-chefe Mickey e Donald. Depois que suas personalidades básicas se desenvolveram no cinema e passaram a habitar as páginas de quadrinhos, centenas de artistas anônimos criaram uma mitologia estável e coerente, partilhada por fãs no mundo inteiro.
Há uma riqueza nessas histórias e personagens, que dificilmente estas poderiam ser obra de um só. Mesmo um criador genial como Carl Barks (que criou Tio Patinhas, Professor Pardal, Irmãos Metralha, Maga Patalógika e outros) encontrou um Pato Donald plenamente desenvolvido por outros roteiristas, animadores e quadrinhistas. Além disso, o pato sovina recebeu acréscimos importantes de Tony Strobl e Al Hubard (que fez o primeiro Peninha). Quando um personagem é lapidado por vários autores, ele ganha uma personalidade rica e quase arquetípica, como se verifica em Don Juan e no Conde Drácula, patrimônios da humanidade. A diferença é que Donald e Tio Patinhas têm muitos pais, mas um dono só.
É tentador qualificar Disney de usurpador do talento alheio, não tivesse sido ele próprio um excelente diretor de criação, exigente e perfeccionista, quando não egocêntrico e tirano (como outros criadores geniais, de Charlie Chaplin a Kurosawa).
Onde o mundo mágico disneyano encontrou um terreno fértil para se desenvolver foi na Itália. Além de criarem um western maravilhoso tanto nas telas como nos quadrinhos, os italianos também inventaram um "Disney-spaghetti" de primeiríssima linha.
Storia e Gloria della Dinastia dei Paperi
Em
meados dos anos cinquenta, as tiras americanas pararam de apresentar as grandes
aventuras de suspense desenhadas por Floyd Gottfredson, e converteram-se em
gags ou piadas sem continuação. Um veneziano chamado Romano Scarpa
encarregou-se da tarefa de produzir aventuras no velho estilo para o editor
Arnoldo Mondadori, detentor dos direitos de Disney na Itália. Scarpa
já havia trabalhado no "Topolino Giornale" nos anos quarenta
("Topolino" é o Mickey) e com desenho animado em seu próprio
estúdio.
Scarpa
realizou cerca de 450 histórias entre 1953 e 1994, em grande parte com
roteiro próprio, e continua ativo. Seu estilo inconfundível virou
escola.
Quando
eu devorava gibis Disney na década de 70, comecei a distinguir os desenhos
e as histórias das quais mais gostava. Claro que não eram assinadas,
mas eu conseguia agrupar as de estilo semelhante. Os "clássicos"
do Tio Patinhas - longas aventuras, tramas bem construídas, desenho contido
sem muitos "riscos de movimento", cenários realistas, sombras
fortes - isso era Barks, mas eu não sabia. Havia as histórias
corriqueiras com o Tio Patinhas dirigindo o jornal "A Patada" (desenhadas
por Al Hubard, e eu também não sabia!); as aventuras do Mickey
detetive (por Paul Murry); e as adaptações de filmes, ilustradas
por Jesse Marsh e Alex Toth. Eu organizava esses desenhistas sem nome em pastas
imaginárias, e uma dessas pastas era a da escola italiana.
![]() capa de Romano Scarpa - © Walt Disney Productions |
Um
código na base do primeiro quadrinho de "História e Glória
da Dinastia Pato" (revista Tio Patinhas 108, Editora Abril, 1974) dava
uma pista: "I / TL 749". "I" devia ser de Itália,
e "TL"? Era da revista "Topolino" número 749, mas
eu não sabia. O desenho era muito ágil, quase violento, e o Tio
Patinhas tinha chiliques a cada duas páginas - enfim, bem italiano. O
traço a pincel, preciso e elegante, era o mesmo de uma outra publicação
da Abril, a "Enciclopédia Disney". Eu tinha dúvidas
se era o mesmo desenhista, mas com certeza era a mesma escola. Intuitivamente,
sabia que haviam sido produzidas na mesma época e lugar.
Bingo! Neste ano 2000, vinte e seis anos depois, via internet, um estudioso italiano gentilmente me esclarece a questão: dois desenhistas realizaram a "História e Glória" (um épico em sete episódios), o já citado Romano Scarpa e um outro desenhista genial chamado Giovan Battista Carpi, este o autor das ilustrações da "Enciclopédia Disney" e também do primeiro "Manual do Escoteiro Mirim". O estudioso é Frank Stejano ("filólogo disneyano") e tem uma homepage sobre o assunto.
Giovan Battista Carpi tinha formação acadêmica de pintor
e apenas ilustrava histórias, a maioria roteirizada por Guido Martina
(embora tenha feito sozinho algumas paródias de clássicos, como
"Guerra e Paz" e "Os Miseráveis"). É notável
em seu trabalho o conhecimento de trajes históricos e uma sólida
cultura clássica, como mostra em uma adaptação de "Gargântua",
de Rabelais, fora da Disney. Também fundou "l'Università
Disney" para formação de artistas disneyanos (hoje "Accademia
Disney"). Carpi era genovês e morreu em março de 1999, aos
72 anos.
Para quem quiser se aprofundar no assunto:
link para o site de Frank Stejano: http://www.uk.research.att.com/~fms/
link para Disney Comics Mailing List (DCML), registros de todas as histórias, artistas e personagens Disney: http://stp.ling.uu.se/~starback/dcml/index.html
link para a Academia Disney: http://www.disney.it/ConsumerProducts/artista/acca/index.htm