machado de assis


Um clássico da literatura é um escritor respeitado depois de morto, principalmente pelos que não o leram.

O primeiro contato com a obra de Machado de Assis se dá, geralmente, na leitura compulsória dos clássicos que adolescentes mal saídos das primeiras letras são obrigados a engolir. Machado, então, é apenas mais um escritor impossível de se ler sem um dicionário do lado, e indistingüível de José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo e Bernardo Guimarães.

Nos cursinhos pré-vestibular, professores showmen recontam Machado em sinopses divertidas e mnemônicas, que se fixam na memória do candidato o tempo necessário de se prestar as provas. Depois disso, Machado se recolhe ao santuário dos clássicos marmóreos da cultura nacional.

É uma pena porque, mais do que romancista, cronista notável e homem do seu tempo, seu olhar arguto de psicólogo, ao radiografar a sociedade carioca novecentista, descobriu o homem universal. Não é à toa que proliferam os estudos internacionais sobre este fenômeno brasileiro, de origem humilde, mulato, epilético e, às vezes, gago.

 

do morro à academia

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839, no Rio de Janeiro, filho de um pintor de paredes mulato e uma portuguesa de prendas domésticas. Apesar da infância difícil, pôde frequentar bons ambientes, como palacete da madrinha D. Maria José Mendonça Barroso. Lá observava reuniões da alta sociedade fluminense e, creio, adquiriu gosto pelos estudos e vontade de fazer parte dela.

Assim, enquanto desempenhava trabalhos modestos como o de caixeiro (balconista) de uma papelaria e vendedor ambulante de doces, Joaquim Maria sempre que podia lia algum livro emprestado ou ia tomar lições de francês com um padeiro do bairro. Morrendo-lhe a mãe, o pai casou-se com uma mulata que incentivava os estudos do menino (o pai preferia o comércio). Enfatizamos aqui a cor da pele dos personagens para lembrar que o Brasil ainda era, e seria por muitos anos, uma sociedade escravocrata; contudo, o meio literário e jornalístico, onde circulavam as idéias abolicionistas, era um território tolerante no qual um descendente de escravos talentoso tinha alguma chance de subir na vida.

Joaquim, adolescente, frequentou a livraria de Paula Brito, mestiço como ele, e ganhou mais um protetor. Com 16 anos, fazia parte da "Sociedade Petalógica" (este nome brincalhão, de "peta", mentira, dá uma idéia do ambiente inteligente e irônico em que se meteu o jovem), grupo de intelectuais que se reunia na casa de Paula Brito, incluindo os jovens José de Alencar, Casimiro de Abreu e outros. Um emprego de aprendiz de tipógrafo fê-lo amigo de Manuel Antonio de Almeida ("Memórias de um Sargento de Milícias"). De revisor de provas de Paula Brito, Joaquim Maria - ou "Machadinho" - finalmente chegou à imprensa, passando pelas funções de revisor, tradutor e redator de notícias e crítica teatral. Aos 21 anos, as melhores revistas da época publicavam suas colaborações.

Casou-se com Dona Carolina Augusta Xavier Novaes, portuguesa, dez anos mais velha, fina e culta, apesar da resistência da família dela ao noivo mestiço. Especula-se hoje a respeito da influência de D. Carolina, que lia Schoppenhauer, Maistre e Sterne, na obra machadiana. Não tiveram filhos.

Paralelamente à carreira de escritor de crônicas, contos, romances e peças teatrais, Machado construiu outra, bem sólida, de burocrata do Estado, para dar estabilidade à primeira. Monarquista, sobreviveu à queda do Imperador com prestígio crescente na sociedade fluminense, chegou a Diretor do Comércio - o mais alto grau da sua carreira no funcionalismo - e ajudou a fundar a Academia Brasileira de Letras em 1897, da qual é aclamado presidente.

 

dissecador irônico e inovador gráfico

É costume dividir-se a obra de Machado de Assis em duas fases, uma chamada "romântica", anterior a 1881, e outra denominada "realista", inaugurada com o intrigante "Memórias Póstumas de Brás Cubas". Esta divisão didática serve apenas como ponto de partida para o estudante.

Examinando a produção literária brasileira do século 19, percebe-se como os escritores dobraram-se docilmente às modas européias, passando do arcadismo ao romantismo por obra de Göethe e Byron, e deste ao realismo por influência de Flaubert e Zola. Daí que é muito fácil colher exemplos típicos de puro romantismo nacionalista na obra de Alencar e do realismo bruto de Aluísio Azevedo.

Não é fácil encaixar Machado neste esquema. Ainda quando desenvolvia enredos românticos em que o interesse maior era saber se os heróis iriam se casar no final ou separar-se tragicamente, ele soube construir personagens complexas, às vezes dúbias, mulheres fortes e desconcertantes (mesmo Iaiá Garcia não é uma Ceci...). Em "Iaiá Garcia", o vilão cínico Procópio Dias explica-se ao rival Jorge: "Atenda-me, doutor; sejamos justos com a natureza humana. Virtudes inteiriças são invenções de poetas" e "No dia em que a natureza se fizer comunista e distribuir igualmente as boas qualidades morais, a virtude deixa de ser uma riqueza". Seu romantismo já é "machadiano".

E o seu realismo também: tiveram que inventar um "realismo psicológico" para classificar as dubiedades de um "Dom Casmurro" na mesma estante de "Germinal" e "A Carne".

"Memórias Póstumas", obra espantosamente lúcida nascida depois de uma ameaça de cegueira, inaugura um Machado completamente senhor de seu estilo, irônico, desencantado com a humanidade (mas sempre elegante), ciente de que as boas intenções acabam cedendo aos interesses do momento. Além do realismo "sem-destino" da personagem (uma vida repleta de não-realizações), o livro inova na narrativa - Brás Cubas interrompe a história para conversar com o leitor - e até na apresentação gráfica, no impacto visual, na tipografia expressiva de capítulos como o 55, "O Velho Diálogo de Adão e Eva", construído com pontilhados, exclamações e interrogações.

Machado oferece várias faces para estudo, conforme o pesquisador lhe examine a obra e ressalte ora o cronista, ora o psicólogo, ora o escritor experimental. Fiquemos com o psicólogo. Nesta especialidade, pode-se dizer dele o que ele escreveu sobre os santos de uma igreja, que após a retirada dos fiéis ficavam comentando as suas intenções ocultas (no conto "Entre Santos"):

"Todos eles, terríveis psicólogos, tinham penetrado a alma e a vida dos fiéis, e desfibravam os sentimentos de cada um, como os anatomistas escalpelam um cadáver".

O talento multifacetado justifica a inclusão de Machado de Assis nesta galeria de Mestres, inicialmente limitada às artes gráficas. Sua experiência em narrativa e autópsia de almas é muito útil nesta nossa área de caricatura e quadrinhos. Ainda mais que ele está prestes a tornar-se gibi; mas isto é outra história.

Links:

Neste site de Cláudio Weber Abramo estão todos os contos de Machado:

uol.com.br/machadodeassis

Aqui tem excelentes biografia e artigos:

puccamp.aleph.com.br/1999/espelhos

Projeto Literatura ao Quadrado

Ananálise Astrológica