andré le blanc

Os leitores de Lobato pós-novela da Globo (1977) estão acostumados com uma boneca Emília toda colorida, trapos vermelhos e amarelos caindo pela cara pintada de clown. Desde então, os desenhos e produtos reproduzem esse modelo, não muito diferente da caracterização dos bonecos americanos do clássico "Rugged Ann & Andy". Enfim, uma boneca de pano universal.
Não posso jurar que a "minha Emília" é melhor, mas a que aprendi a gostar e considerar autêntica, é a Emília desenhada por André LeBlanc. Definitivamente ela não é linda, mas Lobato deixa bem claro que a boneca de Narizinho é uma "bruxinha de pano", uma boneca de roça muito modesta de olhos de retrós. E que vai se transformando, com o tempo, de boneca falante a quase gente, nem menina nem adulta, o que a torna uma personagem difícil de ilustrar.
Haitiano educado nos Estados Unidos e residindo muito tempo no Brasil, LeBlanc ilustrou a coleção completa de Monteiro Lobato publicada pela Brasiliense em 1947 (exceto os dois volumes de "Os Doze Trabalhos de Hércules", em que outro ilustrador inspirou-se mais do que devia nos desenhos do Príncipe Valente...). Só em 1971 outros ilustradores assumiram esse posto. Na mesma época, adaptou clássicos brasileiros para os quadrinhos, entre eles "O Guarani" e "Menino de Engenho", para a Editora Brasil-América (EBAL). LeBlanc também foi autor de duas tiras diárias: "Intellectual Amos" e "Morena Flor", esta distribuída no Brasil, Argentina, Chile e Estados Unidos.

O Guarani
Eis como José Lins do Rego viu o trabalho de LeBlanc em seu romance "Menino de Engenho":
- "Leio o meu próprio romance, com as figuras que LeBlanc idealizou e chego a me emocionar como se estivesse num universo alheio à minha criação. Sinto que a história pula das páginas com um vigor extraordinário. A caracterização que o ilustrador impôs à narrativa tem mesmo carnação e alma."

Tipos de
"Meninos de Engenho"
André falava seis idiomas (no Haiti, além do francês oficial, fala-se espanhol e inglês, além do "criollo") e parece ter ficado preocupado em ver suas filhas sendo educadas em português (veja a entrevista), e mudou-se definitivamente para Nova York, vivendo de ilustrações para livros e quadrinhos, geralmente como assistente de desenhistas famosos como Sy Barry e Will Eisner, sem direito a crédito.
É difícil chamar seu trabalho competente e seguro de "genial". Ele não brilha, não causa impacto, é correto e eficiente. Quem se dispuser a examinar com calma o seu desenho, poderá perceber que todos os detalhes foram realizados com a segurança de quem sabe o que faz: a dobra das roupas, as proporções do corpo humano, as zonas escuras da face, o brilho nos cabelos. O que quer que esteja em um desenho seu está bem desenhado, seja o traje antigo de um aventureiro português, seja um cavalo ou um helicóptero.
Essa versatilidade e perfeccionismo discreto o fizeram ideal para trabalhar como "ghost-assistant" para diversos artistas. Nos quadrinhos, na tira do "Fantasma" por exemplo, o desenhista que assinava (Sy Barry) fazia um esboço ou layout do que ele queria: neste canto fica o Fantasma visto de baixo para cima, atrás dele um exército de pigmeus, e no fundo a selva. O assistente "fantasma" de Sy Barry desenvolvia esse layout, desenhando corretamente os personagens com todos os detalhes, pigmeu por pigmeu, marcando as sombras e zonas iluminadas... todo o desenho. Isto se chama "fazer o lápis" - "to pencil". Às vezes - não era o caso de LeBlanc - o assistente fazia o trabalho duro mas não era muito habilidoso, então um outro artista, mais tarimbado, limpava o traço do primeiro, corrigindo algum erro de perspectiva ou proporção, ou até acrescentando algum detalhe. No "Fantasma", isto era feito por LeBlanc ou pelo próprio dono da tira, Sy - que às vezes tirava férias, e nessa semana toda a tira, desde o "breakdown" (primeiro layout ou planejamento), passando pelo "pencil" e o "tight pencil" (último acabamento a lápis antes de passar tinta), mais a arte-final a nanquim, tudo era LeBlanc quem fazia.
Há
exceções. Ed Rhoades, presidente do fã-clube "Friends
of The Phantom" e que foi aluno e amigo íntimo de LeBlanc, informa
que o desenhista de Flash Gordon, Dan Barry, fez questão de incluir o
nome do assistente nos créditos ("by Dan Barry & Andre LeBlanc"),
embora a parceria tenha durado pouco.
![]() © King Features Syndicate |
Pode-se elogiar o desprendimento do artista que se importa apenas com a sua arte e despreza essas coisas mundanas valorizadas pelos mortais, como dinheiro e glória. Mas não é justo que um artista trabalhador e talentoso não tenha reconhecimento à altura de seus esforços, e que essa condição de anonimato forçado pela necessidade de ganhar a vida, seja amenizada pelo elogio ambíguo à "modéstia" do artista.
Na entrevista realizada por Ed, LeBlanc se mostra grato aos desenhistas que lhe deram trabalho, mesmo aos que venderam seu desenho com se fosse deles. Bem, pelo menos isso garantiu a escola e o leite das crianças... quem quer que tenha ajudado a manter as coisas boas e simples da vida, merece ser considerado um amigo. Deve ter sido seu ponto de vista, e não ouso condená-lo.
Competência, equilíbrio, perfeccionismo, harmonia no conjunto, honestidade, discrição. As mesmas qualidades aparecem na vida e nos desenhos deste homem gentil, fiel aos amigos, amoroso e preocupado com a família, cuidadoso com a sua arte.
André LeBlanc nasceu no Haiti, em 16 de janeiro de 1921, e morreu nos Estados Unidos em 21 de dezembro de 1998.
Spacca,
julho de 2000
-Le
Blanc, o fantasma do Fantasma/ Entrevista a Ed Rhoades
-Le Blanc, interview/ 0riginal
in English