henfil
o humor de guerrilha
"O humor que vale para mim é aquele
que dá um soco no fígado de quem oprime" (Henfil, em "O
Rebelde do Traço - a Vida de Henfil", Dênis de Moraes, José
Olímpio Editora, Rio, 1997)
Então diretor da revista mineira Alterosa, o jornalista Roberto Drummond
(autor do best-seller "Hilda Furacão"), mandou chamar aquele
revisor que só ficava fazendo desenhinhos no expediente. Eram cartuns
meio humor negro, sobre um suicida que pulava do prédio de guarda-chuva
para não se molhar.
- Vou te transformar em cartunista da "Alterosa".
- Mas já no próximo número?
- Sim. Você vai ganhar dez vezes mais. Mas temos que escolher um nome
para você assinar os desenhos. Qual é o seu nome todo?
- Henrique de Souza filho. Eu podia assinar Henriquinho, como todos me chamam.
- Nada disso. Você vai assinar Henfil. Hen de Henrique e Fil de Filho.
Roberto Drummond parecia entender mesmo de furacões. Aquele rapaz se
tornaria um dos cartunistas mais cáusticos e brilhantes da sua geração.
O traço era agressivo mas ao mesmo tempo transparente, inacabado, uma
caligrafia nervosa dotada de incrível poder de expressão, que
transmitia plenamente a idéia de movimento e podia representar as expressões
mais sutis dos personagens.
O grosso da carreira de Henfil deu-se dentro do regime militar 1964-1985, e
da sua prancheta defendia um engajamento radical e sem concessões contra
a ditadura, exceto quando era possuído pelo sádico personagem
Baixim e simplesmente fazia uma catarse apolítica e amoral.
A militância política vem da família. O irmão mais
velho Betinho (o sociólogo Herbert de Souza) foi o seu mentor ideológico.
Depois de fazer parte da Juventude Estudantil Católica - JEC (cuja estratégia
de aliciação incluía bailinhos organizados pelos irmãos
Souza), Betinho foi um dos fundadores da organização marxista
Ação Popular (AP), da esquerda católica. Exilado atuante,
era ele o "irmão do Henfil" que Elis Regina cantava no hino
da abertura "O Bêbado e a Equilibrista" ("Meu Brasil /
que sonha / com a volta do irmão do Henfil"). Também uma
irmã e um cunhado pertenciam a organizações de esquerda.
O cartunista ainda teve forte atuação nos debates que precederam
a anistia, a fundação do PT (o líder petista Luiz Inácio
Lula da Silva afirmou que o trabalho de Henfil foi fundamental na sua formação
política) e na campanha das Diretas-Já. Fez oposição
à Tancredo Neves na sucessão presidencial ("Não
Senhora! O Maluf não é tão feio quanto se pinta. (...)
Quem é este superdemônio? (...) Atenção todas as
viaturas! Larguem o Maluf de Tróia! Pau no Colégio Eleitoral!
Diretas nele!!!" Henfil, "Diretas Já!", Editora Record,
Rio de janeiro, 1984).
Quando Henfil aterrissou no Pasquim em 1969, em dez semanas tornou-se nome consagrado
a ponto de rivalizar com a constelação de estrelas locais: Jaguar,
Ziraldo, Millôr, Claudius, Fortuna e Paulo Francis. O incrível
sucesso editorial do tablóide (de iniciais 14.000 exemplares chegou a
200.000 no número 27) não foi, infelizmente, acompanhado de sucesso
comercial, uma vez que, segundo Jaguar, o dinheiro acabava indo todo para a
Escócia - não por culpa de Henfil, que sempre tomava água
ou refrigerante por conta dos cuidados com a doença que afligia os irmãos
Souza desde o berço.
Henfil e Betinho nasceram com hemofilia, doença que atingia também
o irmão Chico Mário, compositor. Há quem associe a violência
do ímpeto criador do chargista à ânsia de viver, sentida
por todo hemofílico que corre constantemente perigo de vida. Um pequeno
corte ou sangramento na gengiva podem se converter em hemorragias fatais. Depois
de atravessar a vida driblando aqui e ali a doença hereditária,
contraiu o vírus do HIV numa transfusão de sangue, numa época
em que a AIDS estava começando a ser compreendida. Henfil morreu em 1988
com apenas 44 anos incompletos.
Das inúmeras criações de Henfil - torcedores para a imprensa
esportiva, operários para a imprensa sindical, paranóicos como
Ubaldo e patrulheiros ideológicos como o Cabôco Mamadô, que
mandava as personalidades solidárias ao regime ou alienadas para o Cemitério
do Mortos-Vivos - os personagens mais elaborados e perenes são, sem dúvida,
os Fradinhos e o trio Zeferino, Graúna e Bode Orelana.
o divã do dr. fradim
Baixim e Cumprido eram a princípio dois frades sacanas, que corriam atrás
do ladrão não para prendê-lo, mas para repartir o dinheiro
roubado entre si. Logo depois cristalizou-se a fórmula definitiva: Baixim
fazia as maiores nojeiras e sacanagens, batia em velhinhos, crianças,
cegos e aleijados, só pelo prazer de escandalizar o sensível Cumprido.
Pode parecer fácil, à primeira vista, o leitor se identificar
com o Baixim, na medida em que ele tornava visível a hipocrisia do colega
conservador. Por exemplo, o Cumprido dá uma esmola e o Baixim solta esta:
"que bacana, você normalmente aplaca sua consciência culpada
com esmolas de 100 ou 200?" (belo contraponto com a Campanha Contra a Fome
que Betinho lançaria em 1993...).
Mas o surpreendente Henfil não parava neste dualismo simplista. Muitas
vezes o sadismo do Baixim não tinha nenhuma razão de ser, era
crueldade pura e simples. Cumprido, sempre vítima, em certos momentos
conseguia dar a volta por cima e desmoralizar o Baixim, fingindo que não
se incomodava com suas baixarias (o que deixava Baixim, evidentemente, arrasado).
Ou então o Baixim, que antes do Cumprido chegar estava brincando de roda
com uma garotinha, de cavalinho etc, com a chegada do amigo reassume a persona
cruel só para manter as aparências.
Às vezes era muito claro o papel político que cada um representava:
o Cumprido respeitava o sistema e o poder, e o Baixim personificava a liberdade
represada que explodia feito vulcão. Mas nem sempre. Ocorria também
o contrário, como numa charge em que o Baixim ficava triste com o fim
do AI-5, e só conseguia sair da depressão e respirar melhor depois
que o Cumprido providenciava repressões e torturas para animar o colega.
Parece-me, porém, que o ambiente do Baixim não é o político,
mas o psicológico, e se refira à experiência que cada um
pode ter ao confrontar-se com seu próprio Baixim interior - os impulsos
sádicos e destrutivos contidos pela razão e pela moral. Henfil
dizia que a crueldade do Baixim o surpreendia, e não acho que fosse apenas
charme de criador de personagens.
Em 1973, morando em Nova York para conhecer novos tratamentos para a hemofilia,
tentou vender os seus personagens Fradinhos para um grande distribuidor americano.
Assinou contrato com a Universal Press Syndicate (UPS) e os Fradinhos (rebatizados
"Mad Monks") seriam distribuídos para 200 jornais de costa
a costa. Inicialmente dez grandes jornais compraram os Mad Monks. Logo choveram
cartas dos leitores protestando contra o quadrinho "sick" (doente,
mórbido) e o distribuidor desfez o acordo.
o brasil em miniatura na caatinga
A tira do Zeferino era uma metáfora explícita do Brasil, com evidente
intenção de catequese política. A começar pela forma
didática de história em quadrinhos, em que um tema era mastigado
e desenvolvido em diálogos e situações cômicas. A
história parecia acontecer no sertão nordestino, mas Henfil garante
que a ação se passa no norte de Minas, terra de seu pai. Que seja.
A caatinga era um Brasil em miniatura.
Zeferino é um cangaceiro, líder do bando formado por um passarinho
preto e um bode. O bode traz o nome pomposo de Francisco Orelana (explorador
do rio Amazonas e herói do imaginário sul-americano) e come livros
- paródia do intelectual teórico e dirigista. O passarinho preto
é a Graúna, personagem tão complexo que é difícil
definir: ingênua, esperta, doce, infantil, sensual... Os três são
"o povo" da caatinga.
Numa história exemplar, os três resolvem pedir um empréstimo
ao governo para furar um poço artesiano. Primeiro, tentam parecer bem
pobres para conseguir o financiamento, mas só consegue o empréstimo
quem aparentar que não precisa dele. Voltam à financeira de terno
e gravata, mas a barriga da Graúna não pára de roncar e
eles fazem até batucada para encobrir o sinal da fome. No final conseguem
o empréstimo, não para água, mas para fazer uma pornochanchada
(filme erótico dos anos setenta, ingênuo e popular).
Começam a bolar o filme. Têm que arranjar um nome bem imoral. A
Graúna sugere: "A Fome!". O bode retruca que a fome não
é imoral. E a Graúna: "Uai! A censura liberou?". E por
aí vai (para satisfazer a curiosidade, o nome escolhido é "Tem
Peba nas Ceroulas", produção da Pornoxaxado S.A.).
a tática gráfica do anti-disney
O talento de Henfil era multimídia: fez cartuns, quadrinhos, artigos
(as famosas "Cartas da Mãe"), livros ("Diário de
um Cucaracha", "Henfil na China"), teatro, TV, cinema.
O traço ágil, sintético e personalíssimo, de fato
parecia uma caligrafia, não só por se assemelhar a uma escrita,
mas por seu caráter personalíssimo e intransferível. A
simplicidade da solução gráfica é ilusória;
trata-se de um desenho muito difícil de copiar, porque a ausência
de construções clássicas (formas geométricas, volumes,
detalhes de roupa) diminui a distância entre o autor e o traço
final, como numa assinatura. Um personagem com construção visível
como a Mônica tem meia-dúzia de expressões padronizadas
(olho aberto, olho semi fechado, olho fechado dormindo, olho fechado com raiva,
olhar triste e olhar enfurecido). Já a Graúna, não existem
duas com a mesma expressão. Ela é uma "personagem em construção
permanente". O mínimo deslocamento de um tracinho já altera
a expressão e o sentimento.
Henfil disse mais de uma vez que o importante no seu desenho não era
o traço, mas a idéia: "Eu nunca fui de me preocupar com
a forma e o desenho. Só taticamente ele me interessa" (em "Diário
de um Cucaracha").
Esta afirmação não confere com a realidade observada. Apesar
dele ter sido um criador e um desenhista extremamente veloz, era capaz de refazer
o mesmo desenho dezenas de vezes até encontrar a expressão exata
produzida por uma combinação de rabiscos. Preocupado com a expessura
do traço na publicação impressa, se um desenho saía
impresso muito grande ou muito pequeno, dizia que o diagramador sofria de miopia
ou hipermetropia. Então, era um cara bastante atento à dimensão
gráfica do desenho, não apenas ao conteúdo ou mensagem.
O que acontecia era o seguinte: seu desenho, além das motivações
de temperamento e influências que recebeu (por exemplo, de Borjalo, que
mais recentemente fez as vinhetas do programa "Sai de Baixo" na Globo),
servia muitíssimo bem ao seu projeto de vida: ser um Walt Disney da esquerda,
penetrar em todas as mídias sem fazer concessões ao capitalismo.
Como produzir tamanho volume de material artístico sem linha de montagem
de roteiristas, desenhistas e artefinalistas? Sem se tornar patrão e
explorador da classe ilustradora? O traço rápido o permitia. A
idéia chegava quente no papel, sem assistentes, sem intermediários.
Outra possibilidade seria uma cooperativa de desenhistas, ideal difícil
de realizar, ou de manter por muito tempo sem atritos de egos. Mais fácil
era ser o Walt Disney de si mesmo. Chegar inteiro na frente do leitor e dizer,
"ó, tudissaí fui eu que fiz, tem escravo pra passar nanquim
não...". Alienação zero.
Vai mais um trecho do "Diário de um Cucaracha" que aponta nessa
direção, escrito quando Henfil estava em Nova York:
"Eu só queria isto tudo para poder espalhar minhas idéias,
falar das 'verdades sociais' de igual para igual. Usando a mesma máquina,
o mesmo veículo. Depois? Depois fazer desenhos animados. (...) O Tico-Tico
no Fubá serviria para a entrada em cena da Graúna, dançando
e arrumando os letreiros de apresentação: 'Henfil presents - Canudos
II!' O anti-Disney exibido nas TVs CBs, ABC, BBC, Globo. Rê! Rê!
Rê!"