belmonte
Benedito Bastos Barreto (1896-1947) assinava Belmonte e tinha cara melancólica de índio paraguaio. "Por que motivo quase todos os humoristas são tristes? Não sei, francamente, como responder. Creio que são tristes pela mesma inexorável razão por que as caveiras são alegres!" (em "A Cigarra", 1924).
Por duas décadas, Belmonte dominou a imprensa paulistana com o personagem Juca Pato, sujeito enfezadinho, careca e de óculos, que reclamava do custo de vida e do desgoverno dos governantes. Publicou na Folha da Noite, na Careta, na Folha da Manhã. Neste jornal, suas charges contra o nazifascismo chegaram ao conhecimento de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda e da Informação de Hitler. Consta que o político nazista reagiu furiosamente, acusando o brasileiro, pelo rádio, de ter sido comprado pelos aliados.
Herman Lima, historiador da caricatura no Brasil, observa que Belmonte nunca teve a espontaneidade que se espera de um cartunista. Seu trabalho nunca dava "a impressão de ter sido feito a jato, sair-lhe fumegante das mãos". O traço era comportado, as figuras estáticas, duras como estátuas, adquiriam certa leveza quando Belmonte submetia-se à influência poderosa do elegantíssimo J. Carlos.
Além de chargista, foi um dos melhores ilustradores da obra infantil de Monteiro Lobato (o meu preferido é o cubano André Le Blanc). Segundo Lobato, o artista era bom também com as palavras: "A mesma finura de humor que mostra no desenho ressalta dos seus comentários escritos". Assinou crônicas e artigos na "Fon-Fon!", "O Cruzeiro" e outras publicações. Belmonte atribui essa versatilidade a seu espírito irrequieto: "Gosto de ser caricaturista, desenhista, pintor, escritor, jornalista, historiador, o que, afinal, se não chega a dar notoriedade em nenhuma dessas atividades, pelo menos é um bom processo de se distrair de cinco formas diferentes" ("D. Casmurro", 1942).
A
mais discreta dessas distrações talvez tenha sido a mais apaixonante:
a pesquisa histórica. Muitos chargistas usam o expediente de satirizar
um político, representando-o como César ou Hamlet, utilizando
o passado como metáfora do presente; mas é tão evidente
o prazer com que Belmonte lança mão desse recurso, que podemos
pensar o contrário: para ele, o presente é que se torna um pretexto
para se entregar à absorvente tarefa de reviver o passado.
Historiador do Cotidiano
Em "No Tempo dos Bandeirantes" (1939), o autor declara diversas vezes que não se trata propriamente de um livro de História; "poder-se-ia, antes, classificá-lo na categoria dos livros subsidiários, se é que este trabalho merece classificação", ou ainda, "simples reportagem retrospectiva sobre a vila de S. Paulo". Aqui, Belmonte não está sendo apenas modesto. Com efeito, para ele, "História" (assim mesmo, com agá maiúsculo) é a ciência que determina como se deram os fatos históricos, descrevendo-os e explicando-os de modo "infalível e definitivo". Um livro de História diria, por exemplo, como e a que custo S. Paulo do Campo de Piratininga sobreviveu aos perigos do sertão, narrando as batalhas e localizando os fatos no tempo.
Ora, o livro de Belmonte é um painel que retrata, em palavras e imagens, a vida cotidiana dos paulistas de 1600, suas casas, seus móveis, a limpeza das ruas, os preparativos das festas e procissões, a medicina, a escravidão indígena, o comércio de vinho adulterado... é o que se batizou mais tarde de "história do cotidiano", o relato dos hábitos e costumes corriqueiros do dia-a-dia, em oposição à História do Grandes Personagens e suas batalhas e conquistas.
Recorrendo à pesquisa minuciosa em testamentos e atas da Câmara Municipal, obras sobre arquitetura, armamento e heráldica, Belmonte foi verdadeiramente um historiador do cotidiano, antecipando essa tendência futura precocemente trilhada pelo sociólogo Gilberto Freire (que também era desenhista). O desenho detalhista, que para a charge foi uma camisa-de-força, se torna o complemento natural da reconstituição histórica, que não pode prescindir da informação visual.
É verdade que o seu bandeirante ressurge demasiadamente heróico para o gosto revisionista de hoje (que retrata os paulistanos seiscentistas como bárbaros sanguinários, sujos e descalços escravizadores de índios - o que não deve estar muito longe da verdade). Mas Belmonte não deixa registrar a penúria dos paulistas, assim como destaca o luxo com que se vestem em dias de festa.
O leitor que vencer a linguagem um tanto fora de moda do caricaturista-historiador, terá diante de si um retrato vivo dos primeiros habitantes de Piratininga, entremeado aqui e ali com o sutilíssimo humor belmontiano:
"Consome-se vinho larga e abundantemente, em S. Paulo do Campo. E esse consumo contribúe para que o comércio da vila tome uns aspetos importantes, não só devido ao produto da terra, em geral azedo, mas também ao vinho do Reino, muito apreciado por todos e, principalmente, pelos negociantes que realizam o inverso milagre bíblico, transformando-o em água."
É o Juca Pato denunciando os crimes contra a economia popular, desde o século dezessete...