a psicologia planetária
do dr. marcelo

Em março do ano dois mil do calendário gregoriano terrestre, um
alinhamento de planetas iria abalar o equilíbrio gravitacional da terra,
ocasionando terremotos, maremotos e deslocamento de geleiras, e ainda por cima
provocar uma elevação no nível geral da autoconsciência
da humanidade.
Bem, o Apocalipse não veio ainda, e o Doutor em Química Marcelo
R. L. Oliveira não deve ter dado ouvidos a esses boatos. Ele preferiu usar
o tema "alinhamento planetário" para escrever um romance infanto-juvenil,
"A Reunião dos Planetas", publicado pela Companhia das Letrinhas
e ilustrado pelo desenhista que vos tecla.
Se o livro fosse apenas uma aula de Astronomia, já teria cumprido brilhantemente este papel. Não é, é um bom romance também. Marcelo narra com desenvoltura a convenção planetária presidida pelo gigantesco Júpiter, para decidir o destino do planeta Terra cujos habitantes se tornaram uma ameaça para todo o sistema solar. Membro da Sociedade de Estudos Astronômicos de Ouro Preto, o autor entrelaça na trama dados científicos que conduzem a história e inspiram personagens divertidos.
Um bom exemplo é a caracterização do personagem Mercúrio. Como pensa e como age o primeiro planeta do sistema solar? Uma fonte de inspiração comum é a mitologia greco-romana, e Marcelo se serve dela para designar Mercúrio, naturalmente, o mensageiro dos planetas (na mitologia, Hermes/Mercúrio é o mensageiro dos deuses e protetor dos comerciantes e dos ladrões). Até aqui, o óbvio. Mas também encontramos a informação de que
"por causa de seus dias muito compridos e da atmosfera muito rarefeita, que não espalha bem o calor, os dias de Mercúrio são quentíssimos, e as noites, friíssimas. Por isso, mesmo quando descansa em sua órbita, ele vive às voltas com febre, calafrios, nariz escorrendo etc."
Além de viver resfriado, Mercúrio é gago e tem alergia a poeira cósmica... Estas e outras brincadeiras estão apoiadas em informações científicas, na aparência dos planetas, na história da Astronomia (por exemplo, a descoberta de Netuno, através da observação de anormalidades na órbita de Urano), na cultura clássica e no saber popular.
Essa mistura de cientista e contador de histórias já rendeu dois outros livros, "Catapora" e "Salada de Frutas" (Editora RHJ / BH). Neste, Marcelo aproveita para lembrar que o melão, a melancia e o pepino pertencem à mesma família:
"Bambalalão, lá vem o Melão! Tão pálido, quem diria / é primo da Melancia! E uma coisa lhe ensino: / é parente do Pepino."
E ainda ensina que tomate não é legume nem verdura:
"Tão certo como é peixe a truta / Tomate também é fruta."
A missão que me coube foi criar ilustrações não apenas divertidas, mas coerentes com o espírito do livro, de utilizar e conservar os dados científicos para fazer humor. Não bastava botar olhos e boca nos planetas, era preciso criar uma personalidade que não traísse as intenções originais do autor. Ouso dizer que ele ficou satisfeito com o resultado.
Tive o prazer de assistir, no lançamento do livro na Escola de Minas de
Ouro Preto (onde há um observatório astronômico) em 12 de
julho de 2000, a uma palestra em que o professor Marcelo discorria sobre as características
dos planetas para em seguida mostrar como elas foram retratadas nos desenhos.
Como disse João Ribeiro em matéria no Diário da Tarde, "Dizer
que se trata de um livro infantil não expressa tudo que aquelas páginas
sugerem (...) 'A Reunião dos Planetas' é um livro de Astronomia
para crianças de todas as idades".