quadrinhos do
cosme velho

machado de assis e os desafios da tradução

 


Estudo de Newton Foot para o projeto Literatura ao Quadrado

Seis artistas gráficos - Osvaldo Pavanelli, Gilberto Maringoni, Newton Foot, Jô Oliveira, Orlando Pedroso e eu - aceitamos a tarefa, proposta pelo jornalista Marcelo de Andrade e a administradora Mírsia Nakao, de traduzir contos de Machado de Assis para a língua dos quadrinhos.

Trata-se de um projeto chamado "Literatura2" (Literatura ao Quadrado), atualmente em fase de captação de recursos, já aprovado pela Lei Rouanet, mas também podendo seguir um caminho comercial em parceria com editor.

Links para reportagens sobre o projeto de Machado em quadrinhos:

www2.correioweb.com.br/cw/2001-03-01/mat_29001.htm

www.estadao.com.br/divirtase/noticias/2001/jan/04/358.htm

www.canalkids.com.br/central/jornal/quadrinho_machado.htm

www.elfoco.com/El_Foco/Story_Page/0,2388,5_1163_35634,00.html

www.jt.estadao.com.br/editorias/2000/12/27/var439.html

www.sopademamute.com.br/zine/novidades/20010106/n20010106_02.htm

www.fabricadequadrinhos.com.br/hqassis.htm

 

o livro em movimento

A transposição de uma obra literária para um outro meio, peça teatral, ópera, cinema ou TV exige a compreensão correta dos dois idiomas e suas particularidades. Eu digo "língua" e "idioma" por acreditar que o problema é mesmo o de encontrar afinidades entre duas línguas distintas, a de partida e a de chegada. E o ponto crucial é a percepção e o domínio do tempo próprio de cada uma delas. Uma obra literária é um discurso ou um pensamento que se desenvolve num tempo, e o tempo sentido pelo leitor da versão final deve ser equivalente ao do original. Cabe ao "tradutor" encontrar, no código final, os recursos visuais, cênicos etc, que lhe permitam recriar o mesmo ritmo e a atmosfera do original.

Um filme de longa-metragem tem aproximadamente duas horas de projeção. Neste espaço de tempo pode-se narrar uma vida inteira, ou muitas vidas, ou os acontecimentos de uma única noite. O tempo torna-se subjetivo - não corresponde mais ao marcado no relógio, mas a um tempo vivido e lembrado por uma pessoa, sentido. O cinema possui recursos para representar os movimentos da consciência no tempo: a narração contínua, o flash-back, o corte, a duração dos planos; o contraste entre as roupas e objetos de épocas diferentes. O cineasta deve saber tanto encolher o tempo como esticá-lo num suspense interminável. A adaptação de uma obra literária para este meio exige o perfeito conhecimento destes recursos e a invenção de mais alguns.

O excessivo respeito pelo livro pode impedir que o cineasta faça os cortes necessários ou acrescente algo de seu. Tudo depende do que o roteirista considere ser a essência do livro; ele pode estar interessado unicamente na trama, no esqueleto da história. Por exemplo, de um livro de Michael Crichton ("O Parque dos Dinossauros"), pouco se perde se forem conservadas apenas a estrutura básica e algumas cenas importantes. E olhem que ele escreve já com cara de cinema.

Lembro-me de uma adaptação do romance "Desirée" com Marlon Brando no papel de Napoleão. Era muito fiel à história, os diálogos eram bem resumidos. Conseguiram enfiar um volume de uma polegada de largura em duas horas de fita, uma proeza. Mas o ritmo perdeu-se. Cada cena durava um, dois minutos - e logo a ação pulava dois anos, cinco anos. Como construir a empatia com o espectador, como fazê-lo torcer pela heroína sem dar-lhe tempo de conhecê-la melhor?

Outro adaptador pode acreditar que a forma é tão importante, tão estreitamente ligada ao conteúdo, e correr o risco de filmar uma leitura ilustrada com imagens. Isto é um erro; o resultado fatalmente será outra coisa, ouvir um livro não é a mesma coisa que ler, e o espectador não seguirá a narrativa com o mesmo interesse que teria lido o livro.

A adaptação dificílima de João Guimarães Rosa para o cinema é discutida em artigo de Carlos Adriano, "A Angústia das Inadaptações", na revista Cult 43, em fevereiro de 2001: "Os flash-backs, os travellings e a montagem correspondem, respectivamente, às idas e vindas no tempo e espaço do relato, ao ato de percorrer a memória e a paisagem num fraseado contínuo, à decupagem e à composição de palavras em novas relações de sentido".

No caso de Machado, lembro-me de filmagens muito despojadas - suponho que para valorizar o psicologismo do autor e também fazer um filme barato - cuja realização precária comprometeu o resultado final. Lembro-me de Luiz Fernando Guimarães perfeito como Brás Cubas no filme de Bressane, contracenando com o cômico Ankito numa cena primorosa. Mas a estranheza de "Memórias Póstumas" foi traduzida numa linguagem alegórica meio circense, meio mambembe, distante demais da leitura machadiana.

 

o dinâmica da imagem estática

A história em quadrinhos é um meio de expressão próximo do cinema, por apresentar uma sequência de imagens no tempo (representado no papel no sentido da leitura, da esquerda para a direita e de cima para baixo no Ocidente, e da direita para esquerda no Oriente), mas que possui uma sintaxe própria o suficiente para a considerarmos uma linguagem autônoma. A "câmera" (o enquadramento) funciona como no cinema, mas o movimento dos planos é recriado pelo leitor, que realiza saltos de um quadrinho para o outro, construindo para si a ilusão de uma ação contínua. Há também convenções para representar os sons e os diálogos, como o originalíssimo balão, invenção genial de assimilação quase instintiva.

A percepção da página inteira é um dado que pertence exclusivamente aos quadrinhos - não há como, nem na literatura, nem no cinema, a possibilidade de se visualizar simultaneamente diversos momentos de uma narrativa.

Estes e outros elementos devem ser manejados pelo quadrinhista para recriar, nesta língua, neste universo, o fluxo narrativo, os sentimentos e as reflexões de Machado.

Se o roteirista optar por conservar todo ou quase todo o texto original, a história em quadrinhos se estenderá por dezenas de páginas, dando a impressão de ser uma novela, não um conto. Ou o texto ficará espremido em caixas de legenda e balões enormes, quebrando a fluidez da história.

O quadrinhista terá que escolher o que cortar do original, e compensar a perda com elementos compensatórios, que ajudem a recriar a atmosfera perdida no recorte. Reflexões poderão virar olhares, closes em objetos, imagens oníricas, balões de pensamento com texto ou desenhos. Diálogos talvez terão que ser criados.

Não será fácil!

Mas sabemos que Machado de Assis enfrentou um desafio semelhante.

 

machado já passou por isso

Em 29 de janeiro de 1845, Edgar Allan Poe publicou um poema de grande impacto sonoro, que traduzia perfeitamente o clima estranho da narrativa. Era "O Corvo".

Diversos poetas tentaram traduzir o poema do inglês de Poe para suas respectivas línguas. Machado, que não fazia feio em poesia, fez a sua versão, uma das mais conhecidas no nosso idioma.

Um livro reúne esta e mais oito versões do poema, duas em francês: "O Corvo’ e suas Traduções", Editora Nova Aguilar, 1998, organizado por Ivo Barroso, que abre o livro com um ensaio.

A tradução de um poema envolve preocupações análogas às da adaptação de um texto literário para os quadrinhos. Na poesia, não temos apenas o significado das palavras, as coisas e sentimentos representados, mas o seu som, e a repetição de sons no tempo, e mesmo a visualização do bloco de versos em uma estrofe, cuja estrutura se repete na estrofe seguinte, o que pode ser percebido tanto na musicalidade - na respiração - como na forma visual.

"Evidentemente que nenhuma tradução consegue preservar todos os elementos do original, mesmo de um poema curto, de um simples hai-kai (...). O virtuosismo do tradutor consiste em ‘salvar’ o máximo possível desses elementos, sem lhes alterar a forma e sem deixar que o fôlego feneça, de modo que o poema, na língua de chegada, siscite no leitor o mesmo impacto visual e emotivo que o atinge na língua de partida." (Ivo Barroso, obra citada).

"Compete-lhe encontrar em sua língua, equivalências (isotopias) que possam funcionar como moedas de troca, o que não é a mesma coisa, mas o viável, em seu territória lingüístico, para se obter o valor aproximado" (idem)

A tradução depende, inicialmente, do acaso feliz de se encontrar equivalências como sonoridade e forma semelhantes. No poema "O Corvo", o idioma francês perde vantagem, pois o bordão "Nunca mais!" (Never more!) que encerra as estrofes, em francês fica meio chocho - "Jamais plus". Imaginem um corvo fazendo biquinho e grasnando "Jamé plí". Em português, convence: "NUNCA MAIS, CRÁÁÁ, NUNCA MAIS!".

Gilberto Gil encontrou o "Não Chores Mais" para "Woman No Cry", som e significado idênticos.

Machado de Assis, no julgamento do crítico Ivo Barroso, não foi dos melhores, embora, sem consultar o original, sua versão seja bastante imponente:

Em certo dia, à hora, à hora / Da meia-noite que apavora, / Eu, caindo de sono e exausto de fadiga / Ao pé de muita lauda antiga / De uma velha doutrina, agora morta / Ia pensando, quando ouvi à porta / Do meu quarto um soar devagarinho / E disse estas palavras tais: / É alguém que me bate à porta de mansinho; / Há de ser isso e nada mais.

E Poe:

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary, / Over many a quaint and curious volume of forgotten lore / While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping, / As of some one gently rapping, rapping at my chamber door. / "'Tis some visitor," I muttered, "tapping at my chamber door / Only this and nothing more."

O original de Poe é mais enxuto. Embora em texto corrido a massa de texto seja a mesma, a estrutura é outra (cada estrofe tem 5 versos longos e um curto, Machado aumentou para 10 versos curtos) e é cheia de achados rítmicos e semelhanças sonoras ("While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping / As of some one gently rapping, rapping at my chamber door..."). Na avaliação de Ivo Barroso, Machado preferiu contar a história e "passou por cima dos efeitos especiais que conseguiram transformar essa história em poesia".

Entre os tradutores em língua portuguesa (e com Fernando Pessoa no páreo!) o ensaísta elege o jornalista e tradutor Milton Amado como o autor da versão mais fiel ao original, boa tanto tecnicamente como para ser declamada, como era o poema de Poe.

A mesma estrofe, por Milton Amado:

Foi uma vez: eu refletia, à meia-noite erma e sombria / a ler doutrinas de outro tempo em curiosíssimos manuais, / e, exausto, quase adormecido, ouvi de súbito um ruído, / tal qual se houvesse alguém batido à minha porta, devagar. / "É alguém - fiquei a murmurar - que bate à porta, devagar; / sim, é só isso e nada mais."

Modestamente, concordamos, mas nos parece que Machado também foi habilidoso nas repetições de "hora, hora que apavora" que lembram, embora fora de lugar, "forgotten lore", "chamber door" e "nothing more" ou "never more". O som "or" também está na rima "morta/porta".

Nós, quadrinhistas, tentaremos ter com Machado o mesmo cuidado que ele dispensou a Poe. Cientes de que haverá perdas, sem dúvida, mas estaremos alertas para encontrar, em nosso "idioma", moedas de troca viáveis para se obter o valor aproximado do original.